sexta-feira, 12 de outubro de 2012

REVISTA BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA


Revista Brasileira de Reumatologia.

Destaques da edição mais recente da Revista Brasileira de Reumatologia, editada pela Sociedade Brasileira de Reumatologia.
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RBR - vol 52 - JUL/AGO 2012

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Consenso 2012 da SBR sobre o manejo de comorbidades em pacientes com artrite reumatoide

A artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune infl amatória sistêmica que tem como característica principal a presença de poliartrite crônica simétrica de grandes e pequenas articulações. Apesar do envolvimento musculoesquelético típico, essa é uma enfermidade sistêmica que pode acometer vários órgãos, como pulmão, olho e vasos sanguíneos.

                                                                                                             
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Instrumentos de medida em fibromialgia

A fibromialgia (FM) é uma síndrome caracterizada por dor difusa1 crônica de etiologia desconhecida, provavelmente multifatorial, distúrbios do sono, fadiga e alterações do humor. Não apresenta injúria tissular nem alterações nos exames laboratoriais e de imagem.8 Assim, a intensidade, o impacto na qualidade de vida do paciente e as variações temporais ou de intervenções terapêuticas são subjetivos, difíceis e imprecisos.

                                                                                                             


Outros destaques desta ediçao:


Parâmetros do controle postural em mulheres idosas com ou sem histórico de quedas associadas ou não à osteoartrite de joelhos

Uma das consequências do envelhecimento populacional é o aumento das doenças crônico-degenerativas, dentre as quais a osteoartrite (OA) é a doença articular mais prevalente na população idosa, gerando impacto socioeconômico devido às incapacidades que causa nos indivíduos.



Associação entre os níveis séricos de potenciais biomarcadores com a presença de fatores relacionados à atividade clínica e ao mau prognóstico em espondiloartrite

Espondiloartrite (EpA) é um grupo heterogêneo de doenças inflamatórias crônicas que compartilham manifestações clínicas e radiológicas. Essas doenças estão associadas à presença de antígeno leucocitário humano B27 (human leukocyte antigen, HLA-B27), que leva a uma tendência para associação familiar.



Ausência de associação entre o genótipo CC do polimorfi smo rs7903146 no gene TCF7L2 e artrite reumatoide

A artrite reumatoide (AR) é uma doença infl amatória sistêmica crônica e progressiva de etiologia desconhecida. Envolve primariamente a membrana sinovial, podendo levar à destruição de osso e cartilagem.



Frequência elevada de calcinose em dermatomiosite juvenil: estudo de fatores de risco

A dermatomiosite juvenil (DMJ) é uma doença multissistêmica que faz parte de um grupo heterogêneo de doenças musculares infl amatórias adquiridas e corresponde a 85% de todas as miopatias infl amatórias idiopáticas na infância.



Avaliação da função endotelial em pacientes com esclerose sistêmica limitada por meio do eco Doppler da artéria braquial

A esclerose sistêmica (ES) é uma doença crônica do tecido conjuntivo caracterizada por espessamento e fi brose da pele e dos órgãos internos por deposição de colágeno, glicosaminoglicanos e outras proteínas da matriz extracelular, além de dano vascular por endarterite proliferativa.



Diretrizes para prevenção e tratamento da osteoporose induzida por glicocorticoide

Os glicocorticoides (GC) são utilizados por praticamente todas as especialidades médicas. Cerca de 0,5% da população geral do Reino Unido utiliza esses medicamentos, chegando a uma frequência de 1,75% das mulheres acima de 55 anos.



Manifestações musculoesqueléticas em diabetes mellitus

O diabetes mellitus (DM) é uma doença metabólica crônica com alta morbidade e mortalidade que vem se tornando um problema de saúde pública. Em 1985, a prevalência mundial de DM era de aproximadamente 30 milhões de casos, aumentando para 177 milhões em 2000.



Bloqueio do nervo supraescapular: procedimento importante na prática clínica. Parte II

A dor no ombro tem prevalência de 15%–30% na população adulta e é uma queixa frequente principalmente nos idosos, podendo levar à incapacidade funcional e à redução da qualidade de vida.



Artrite psoriásica: entidade clínica distinta da psoríase?

A psoríase é uma afecção cutânea inflamatória poligênica com fatores desencadeantes como traumas, infecções e medicações que podem levar a diferentes manifestações clínicas em indivíduos predispostos.



Síndrome antifosfolípide e dermatomiosite/polimiosite: uma rara associação

A síndrome antifosfolípide (SAF) pode ser primária ou secundária a uma série de condições, tais como neoplasias, doenças infecciosas, drogas ou, ainda, a outras doenças autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico (LES) .



Retocolite ulcerativa e artrite reumatoide: uma rara associação – relato de caso

A retocolite ulcerativa (RCU) é uma doença infl amatória sistêmica, de causa desconhecida e de natureza essencialmente autoimune. Afeta predominantemente o cólon e o reto, resultando em diarreia crônica. Embora a associação entre doenças autoimunes seja conhecida, é rara a coexistência de retocolite e artrite reumatoide (AR).



Uso de infl iximabe em paciente com artrite reumatoide e hepatite B crônica

O fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) é um mediador envolvido na infl amação e na resposta imune celular, desempenhando importante papel no sistema de defesa frente a um processo infeccioso.




10 SINTOMAS DA TUBERCULOSE


10 SINTOMAS DA TUBERCULOSE

Autor do texto: Pedro Pinheiro - 11 de julho de 2012 | 14:14

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A tuberculose é uma doença infectocontagiosa causada por uma bactéria conhecida como bacilo de Koch (BK). Apenas 10% dos indivíduos expostos ao bacilo de Koch desenvolverão sintomas da tuberculose. Nos 90% restantes, a bactéria é controlada pelo sistema imunológico, ficando inativada, incapaz de ser transmitida ou de provocar qualquer sinal de doença. Estes pacientes, porém, podem desenvolver tuberculose tempos depois se houver alguma queda nas suas defesas imunológicas, permitindo a proliferação da bactéria.

Nos pacientes que desenvolvem tuberculose ativa, a grande maioria o faz através da tuberculose pulmonar. Porém, o bacilo de Koch pode acometer outros órgãos do corpo que não os pulmões, como nos casos de tuberculose ganglionar, tuberculose óssea, tuberculose na pele, tuberculose intestinal, tuberculose cerebral etc.

Explicamos as formas de tuberculose com detalhes, assim como seu diagnóstico, transmissão e tratamento no texto: TUBERCULOSE | Sintomas e tratamento.

Neste artigo vamos abordar os sinais e sintomas mais comuns da tuberculose pulmonar e da tuberculose extrapulmonar. Como a forma pulmonar é a mais comum, daremos ênfase aos seus sintomas.

Sintomas da tuberculose 1# - Febre

A febre é um dos sintomas mais comuns da tuberculose, seja na forma pulmonar ou na tuberculose de outros órgãos. Em geral, a febre é alta, acima dos 38ªC, diária e com predomínio no final do dia, chamada de febre vespertina (leia: O QUE É FEBRE?). Nos idosos, porém, a tuberculose pode surgir sem febre.

Sintomas da tuberculose 2# - Suores noturnos

Além da febre vespertina, também é comum os pacientes apresentarem suores noturnos. Em alguns pacientes com tuberculose, os suores noturnos podem ocorrer mesmo sem a presença da febre.

Sintomas da tuberculose 3# - Tosse

Tuberculose pulmonar
A tosse é o sintoma mais comum da tuberculose pulmonar. Ela não costuma estar presenta nas outras formas de tuberculose. Um paciente com tuberculose urinária ou gastrointestinal, por exemplo, só apresentará tosse se também tiver tuberculose pulmonar ativa.

A tosse da tuberculose pulmonar é crônica, com duração de semanas. Geralmente inicia-se como uma tosse seca, agravando-se ao longo dos dias, podendo evoluir para uma tosse purulenta, com expectoração amarelo-esverdeada  (leia: TOSSE | Causas e tratamento).

A tosse com catarro da tuberculose é diferente da tosse da pneumonia, por ser um quadro mais arrastado, que evolui durante semanas. Na pneumonia o quadro de febre alta e tosse evolui em poucas horas, fazendo com que o paciente procure ajuda médica em 24-48 horas. Na tuberculose, o paciente só se sente suficientemente mal para procurar um médico vários dias, às vezes semanas, depois do início da doença (leia: PNEUMONIA | Sintomas e tratamento).

Sintomas da tuberculose 4# - Expectoração com sangue

Com o passar dos dias, a expectoração purulenta pode se transformar em expectoração sanguinolenta, que recebe o nome de hemoptise. A catarro com sangue é um sintoma típico da tuberculose em fases mais avançadas (leia: TOSSE E ESCARRO COM SANGUE | Principais causas).

Sintomas da tuberculose 5# - Falta de ar e cansaço

A falta de ar é um sintoma comum da tuberculose pulmonar e ocorre geralmente em fases mais avançadas, quando o acometimento do pulmão já é extenso. A falta de ar no início do quadro ocorre apenas durante o esforço, porém, com a evolução da infecção, passa a surgir mesmo em repouso (leia: FALTA DE AR | Causas e tratamento ).

A falta de ar também pode ser causada por acometimento da pleura do pulmão, provocando derrame pleural (água na pleura) ou pneumotórax (ar na pleura). Para entender melhor essas duas complicações, leia: DERRAME PLEURAL | Sintomas e tratamento e O QUE É PNEUMOTÓRAX?

O cansaço, por outro lado, é diferente da falta de ar e ocorre em qualquer forma de tuberculose, sendo caracterizado por falta de forças, sensação de mal estar, vontade de ficar deitado o tempo todo e desânimo (leia: CANSAÇO | FADIGA | Principais causas). O cansaço não é por acometimento pulmonar, mas sim pelo quadro de infecção grave.

Sintomas da tuberculose 6# - Dor torácica

A dor na região torácica é outro sintoma comum da tuberculose pulmonar. Ela pode surgir por vários motivos, desde a lesão do pulmão pela própria tuberculose, quanto pelo esforço causado pela tosse crônica, ou mesmo pelo acometimento da pleura pela infecção, que se caracteriza por uma dor que surge durante a respiração profunda, chamada de dor pleurítica.

A dor torácica nos casos de infecção pulmonar pela tuberculose costuma ser na região das costas, geralmente do lado do pulmão mais acometido.

Sintomas da tuberculose 7# - Perda de peso

A perda de peso e a falta de apetite ocorrem em todas as formas de tuberculose. É comum o paciente se apresentar ao médico assustado com uma perda de 5 a10 quilos nas últimas semanas.

Sintomas da tuberculose 8# - Linfonodos aumentados

O aparecimento de um ou mais linfonodos aumentados e palpáveis pelo corpo é um sintoma típico da tuberculose ganglionar.

A apresentação mais comum é o surgimento de um único linfonodo aumentado, não doloroso, em um adulto jovem sem outros sintomas, como febre, perda de peso, tosse ou cansaço. Porém, não é incomum o paciente apresentar mais de um gânglio aumentado ou ter a forma pulmonar e ganglionar juntas, fazendo com que os sintomas descritos acima estejam presentes.

O exame do linfonodo revela uma massa endurecida e bem aderida. Em cerca de 70% dos casos o gânglio surge na região do pescoço. Outros locais onde costumam surgir linfonodos na tuberculose ganglionar são a região das axilas, acima da clavícula, no cotovelo ou na virilha. Exames radiológicos conseguem identificar linfonodos aumentados em regiões mais profundas, como na cavidade abdominal e no mediastino (região dentro do tórax).

Sintomas da tuberculose 9# - Dor óssea

A tuberculose óssea costuma se manifestar como uma dor nos ossos, principalmente dor lombar, por acometimento das vértebras da coluna pela infecção (chamado de mal de Pott).

A tuberculose óssea não é uma forma muito e a dor costuma ser apenas leve a moderada no início do quadro. Se não houver febre e perda de peso, o médico não costuma (nem deve) suspeitar inicialmente de tuberculose nos pacientes com queixas de dor na coluna. A radiografia da coluna costuma ser normal nas fases inciais, sendo necessária a realização de tomografia computadorizada ou ressonância magnética para o diagnóstico precoce.

Sintomas da tuberculose 10# - Sangue na urina

A tuberculose do sistema urinário costuma se apresentar como um quadro de infecção urinária que não cura com os antibióticos tradicionais e não é identificada pelas uroculturas (leia: EXAME UROCULTURA | Indicações e como colher).

A bactéria geralmente se aloja em um dos rins e provoca dor na região lombar associado a sangue e pus na urina, às vezes de forma microscópica, só detectável pelos exames de laboratoriais de urina (leia: EXAME DE URINA | Leucócitos, nitritos, hemoglobina...). Se não tratada a tempo, leva a destruição dos rins.

Considerações finais

Mais de 90% dos pacientes infectados pelo bacilo de Koch vão desenvolver a forma pulmonar da doença, sendo a tosse, a febre e a perda de peso de evolução arrastada os sintomas mais típicos da doença. Como as formas extrapulmonares são menos comuns, o diagnóstico pode ser mais difícil de ser estabelecido, principalmente se o paciente não tiver também os sintomas sistêmicos típicos da tuberculose, como perda de peso, febre e/ou cansaço.

Há dezenas de formas de tuberculose extrapulmonar, o que leva a dezenas de formas de apresentação clínica da doença. Listamos acima apenas as formas mais comuns, mas pacientes com tuberculose do sistema nervoso central, dos intestinos, dos órgãos genitais, da pele, etc., podem ter sintomas completamente distintos aos descritos acima. De comum, apenas a febre, o emagrecimento e o cansaço, que  não necessariamente estarão presentes em todos os casos.


Leia o texto original no site MD.Saúde: 10 SINTOMAS DA TUBERCULOSE http://www.mdsaude.com/2012/07/10-sintomas-da-tuberculose.html#ixzz2979CAu00

PNEUMONIA | Sintomas e tratamento

Autor do texto: Pedro Pinheiro - 17 de julho de 2012 | 07:11

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Pneumonia é o nome que damos à infecção do pulmão. Para sermos mais precisos, a pneumonia é a infecção dos tecidos pulmonares e seus alvéolos.

Neste artigo vamos explicar as seguintes questões sobre pneumonia:
  • O que é pneumonia.
  • Como se pega pneumonia.
  • Sintomas da pneumonia.
  • Diferenças entre pneumonia e tuberculose.
  • Diagnóstico de pneumonia.
  • Tratamento da pneumonia.
O que são os alvéolos?

Para entender o que é a pneumonia é preciso antes conhecer um pouquinho a anatomia do pulmão.

Leia o texto e acompanhe a figura abaixo para entender melhor as explicações. O ar que respiramos entra pelo nariz e/ou boca e vai para a traqueia. A traqueia, ao chegar ao nível dos pulmões, bifurca-se, formando os brônquios principais, um para o lado esquerdo, outro para o direito; estes brônquios também se bifurcam, formando os bronquíolos, que por fim, acabam nos alvéolos. Cada vez que ocorre uma bifurcação, as estruturas vão se tornando progressivamente menores.
Anatomia dos pulmões
Anatomia dos pulmões (clique para ampliar)

Os alvéolos, que ficam no ponto final da árvore respiratória, são cavidades microscópicas que estão em contato com a corrente sanguínea. Através deles são feitas as trocas dos gases respirados (oxigênio e gás carbônico). O alvéolo entrega o oxigênio respirado para as hemácias (glóbulos vermelhos) no sangue e recebe delas o gás carbônico produzido pelas células do corpo. Portanto, como todos sabemos, inspiramos oxigênio e expiramos gás carbônico.

Na pneumonia, os alvéolos ficam cheios de secreções purulentas, impedindo a entrada e saída dos gases. Nestes alvéolos acometidos pela infecção não há troca de oxigênio por gás carbônico. Quantos mais alvéolos acometidos pela pneumonia, mais grave é o quadro. O paciente com pneumonia extensa pode apresentar insuficiência respiratória, precisando ser intubado e acoplado a um respirador artificial para conseguir manter o sangue adequadamente oxigenado.

Como se pega pneumonia?

A pneumonia pode ser causada, em ordem decrescente de frequência, por: bactérias, vírus, fungos e parasitas. Nenhum destes germes que causa pneumonia é contagioso.

A maioria das pneumonias são de origem bacteriana. As bactérias que mais habitualmente provocam pneumonia são: Streptococcus pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella pneumoniae, Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis e Staphylococcus aureus (leia: STAPHYLOCOCCUS AUREUS | Quais os riscos desta bactéria).

Na verdade, pegar pneumonia não é termo mais apropriado, uma vez que este passa a ideia de transmissão da doença entre indivíduos. A pneumonia não é uma doença contagiosa como a gripe ou tuberculose. Você pode entrar em contato com um paciente com pneumonia, que não haverá risco de contaminação.

Como então surge a pneumonia? Nossos pulmões são órgãos expostos constantemente a micróbios do ar e da nossa própria flora bacteriana da boca. Nós não ficamos doentes o tempo todo porque o pulmão tem seus próprios mecanismos de defesa, que o mantém livre de germes. Entre estes mecanismos podemos citar o reflexo de tosse, a presença de células do sistema imunológico ao longo de todo trato respiratório e a existência de microscópicos cílios na árvore brônquica que "varrem" os agentes invasores para fora das vias respiratórias.

O desenvolvimento da pneumonia depende da virulência do invasor, da quantidade de micróbios que conseguem chegar aos pulmões e das condições imunológicas do paciente. Em geral, uma pneumonia surge quando um germe agressivo consegue penetrar o trato respiratório e encontra o sistema de defesa comprometido.

Situações triviais podem reduzir as defesas do sistema respiratório. Por exemplo: pacientes que fumam apresentam um irritação constante de toda árvore brônquica e disfunção dos cílios protetores. As células de defesa pulmonar também são afetadas pelo cigarro e não funcionam tão bem. Tudo isso favorece o aparecimento de infecções respiratórias. Outro exemplo são os pacientes com gripe. A lesão que o vírus da gripe provoca do sistema respiratório também favorece a invasão de bactérias, que se aproveitam da redução da capacidade do paciente de combater os germes que chegam às partes mais interiores do sistema respiratório. Pessoas idosas naturalmente têm seu sistema imunológico mais fraco, o que as coloca sob maior risco de desenvolver pneumonias. Do mesmo modo, pessoas já debilitadas por outras doenças, como insuficiência cardíaca, alcoolismo ou diabetes, também apresentam maiores riscos.

Fatores de risco para pneumonia 

Os principais fatores de risco para pneumonia são:

- Idade maior que 65 anos.
- Infecções respiratórias virais, como gripe.
- Tabagismo (leia: DOENÇAS RELACIONADAS AO CIGARRO / TABAGISMO).
- Doenças imunossupressoras ( HIV, transplante, câncer...).
- DPOC (bronquite crônica e enfisema pulmonar) (leia: DPOC | ENFISEMA E BRONQUITE CRÔNICA).
- Usuários de drogas (leia: COCAÍNA | CRACK | Efeitos e complicações).
- Doentes acamados.
- Pessoas com redução do nível de consciência.
- Hospitalizações prolongadas.
- Pacientes em ventilação mecânica (em uso de respirador artificial).
- Pacientes com outra doença pulmonar prévia (sequelas de tuberculose, bronquiectasias, fibrose cística, etc.)

Pneumonia por aspiração

Um tipo gravíssimo de pneumonia é a pneumonia por aspiração. Ocorre em pessoas que vomitam e logo após aspiram o seu conteúdo. É um tipo de pneumonia comum em pacientes com nível de consciência reduzido, que perdem a capacidade de tossir ou de engolir a própria saliva, fazendo com que as secreções da cavidade oral caiam nas vias respiratórias. A via aérea desta pessoa fica exposta a uma quantidade imensa de micróbios, muito maior do que o habitual, favorecendo o desenvolvimento de pneumonia. Um exemplo comum é alguém que bebeu muito e está em coma ou pré-coma alcoólico.

Sintomas da pneumonia

Os sinais e sintomas da pneumonia incluem tosse com expectoração, febre, calafrios, falta de ar, dor no peito quando se respira fundo, vômitos, perda de apetite, prostração e dores pelo corpo. Pode haver presença de sangue misturado ao escarro (leia: TOSSE E ESCARRO COM SANGUE). A febre da pneumonia é geralmente alta.

É muito comum a pneumonia surgir como complicação de uma gripe. Muitas vezes o paciente acaba atribuindo seus sintomas de pneumonia à gripe, demorando a procurar ajuda médica. É preciso ter atenção a quadros de gripe que não melhoram, ou até pioram progressivamente, principalmente se o paciente for idoso.

Pacientes acima de 60 anos ou com outras doenças, como insuficiência renal, insuficiência cardíaca, cirrose, HIV ou uso de drogas imunossupressoras, podem apresentar um quadro mais discreto, com pouca tosse e nenhuma febre. Às vezes, a pneumonia neste grupo se apresenta apenas com prostração e alterações mentais, como desorientação e confusão mental.

Uma das complicações possíveis da pneumonia é a formação de derrame pleural (leia: DERRAME PLEURAL | Tratamento, sintomas e causas), que colabora para o surgimento de cansaço e falta de ar.

Nas pneumonias extensas, quando grande parte do tecido pulmonar está acometido, o paciente pode entrar em insuficiência respiratória, sendo necessária a entubação orotraqueal, ventilação mecânica e internação em unidade de terapia intensiva (UTI) (leia: ENTENDA O QUE ACONTECE COM OS PACIENTES NA UTI).

Pneumonias atípicas 

Existe um grupo de bactérias, entre elas Mycoplasma, Legionella e Clamídia, que causam as chamadas pneumonias atípicas. São formas que podem ter evolução mais lenta e com quadro não tão óbvio de pneumonia.

Diferenças entre pneumonia e tuberculose

Muitos pacientes que apresentam um quadro de tosse e expectoração ficam assustados com a possibilidade de terem tuberculose. A diferença está no tempo de evolução da doença. A pneumonia é um quadro agudo que evolui em horas. O paciente fica mal com pouco tempo de doença, procurando atendimento médico já nas primeiras 72 horas de doença. A tuberculose se apresenta como um quadro mais arrastado, com os sintomas piorando gradativamente e o paciente muitas vezes só procura atendimento médico várias semanas depois do início dos sintomas.

Para mais informações sobre tuberculose, leia: TUBERCULOSE | Sintomas e tratamento.

Diagnóstico da pneumonia 

O diagnóstico da pneumonia é feito normalmente com exame físico e uma radiografia de tórax. Análises de sangue podem ajudar, mas não são imprescindíveis. Um bom médico é capaz de diagnosticar uma pneumonia apenas com a história clínica e o exame físico.
Radiografia de tórax com pneumonia
RX tórax - Pneumonia no pulmão direito

A radiografia, por ser um exame barato e amplamente disponível, é normalmente solicitada para confirmação do diagnóstico. Os alvéolos cheios de secreção aparecem como uma mancha branca à radiografia de tórax, como se pode ver na foto ao lado

O hemograma do paciente com pneumonia apresenta uma grande elevação do número de leucócitos, típico de infecções bacterianas (leia: ENTENDA OS RESULTADOS DO SEU HEMOGRAMA).

Nos pacientes mais graves, que necessitam de hospitalização, normalmente tentamos identificar qual é a bactéria responsável pela pneumonia. Podemos pesquisar a bactéria no sangue (através da hemocultura) ou no próprio escarro do paciente. Em casos selecionados pode ser necessária a coleta de secreções diretamente do pulmão, através da broncoscopia.

Tratamento da pneumonia

As pneumonias são divididas em comunitárias, quando adquiridas no dia-a-dia, e hospitalares, quando surgem em pacientes hospitalizados. A pneumonia hospitalar é mais grave e mais difícil de tratar, pois é normalmente causada por bactérias mais resistentes e acomete pacientes mais fragilizados.

O tratamento das pneumonias bacterianas é feito com antibióticos por no mínimo oito dias. As pneumonias comunitárias podem ser tratadas com antibióticos orais, porém, aquelas que evoluem mal necessitam de internação hospitalar e antibióticos venosos.

As principais drogas usadas para as pneumonias comunitárias são a amoxacilina, azitromicina, claritromicina, ceftriaxona, levofloxacino e moxifloxacino. Esperam-se sinais de melhora a partir do terceiro dia de tratamento.

Pneumonias podem facilmente levar à sepse ( leia: O QUE É SEPSE / CHOQUE SÉPTICO ?) e costumam ser importante causas de morte em idosos e pacientes imunossuprimidos.

Já existe vacina contra a pneumonia estreptocócica, causada pelo Streptococcus pneumoniae, o tipo mais comum. Ela está indicada em crianças e pessoas acima dos 50 anos, mas não evita pneumonias causadas por outros germes.

Pegar frio causa pneumonia?

A história do frio é muito difundida na população, mas apresenta apenas uma pequena parcela de verdade. Como eu já expliquei, para se ter pneumonia é necessário uma infecção bacteriana; não basta uma corrente de ar frio para nos infectar.

O que acontece é que no frio (no Brasil poucos lugares fazem realmente frio) o sistema de defesa, principalmente os cílios das vias aéreas, funcionam de modo mais lentificado, o que favorece a invasão de germes. No inverno as pessoas andam menos na rua e tendem a se aglomerar em locais fechados, favorecendo a transmissão de vírus como o da gripe (leia: DIFERENÇA ENTRE GRIPE E RESFRIADO). Como já referido, infecções respiratórias virais são fatores de risco, principalmente em idosos, para o aparecimento de pneumonia.

Agora, ninguém pega pneumonia porque abriu a geladeira com o corpo molhado ou porque pegou uma chuva saindo do trabalho ou do colégio. Felizmente, nosso sistema imune é suficientemente forte para lidar com situações triviais como estas.

Especialidade do assunto: Pneumologia e Infectologia
5/5
Autor: Dr. Pedro Pinheiro
Última revisão: 19 de Setembro de 2012

Vérsion en español:  NEUMONÍA | Síntomas y tratamiento


Leia o texto original no site MD.Saúde: PNEUMONIA | Sintomas e tratamento http://www.mdsaude.com/2009/02/quais-sao-os-sintomas-da-pneumonia.html#ixzz29782TF2n

CERÚMEN / CERA DO OUVIDO


CERÚMEN | Cera do ouvido

Autor do texto: Pedro Pinheiro - 8 de outubro de 2012 | 22:27

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O cerume ou cerúmen, vulgarmente conhecido como a cera do ouvido, é uma substância produzida pelas glândulas dos ouvidos, que tem como função proteger a pele do canal auditivo externo de danos provocados pela água, traumas, corpos estranhos, infecções, etc.

O acúmulo de cerume é geralmente assintomático, mas pode, ocasionalmente, causar sintomas incômodos, como a perda de audição, coceira, desconforto ou sensação de ouvido entupido de cera.

Neste texto vamos abordar os seguintes pontos sobre a cera de ouvido:
  • O que é o cerúmen.
  • Sintomas do ouvido entupido de cera.
  • O que causa impactação de cera no ouvido.
  • Como remover cera do ouvido.
O que é o cerúmen

O cerúmen é uma substância produzida no canal auditivo, que é a parte mais externa do sistema auditivo, localizada entre a membrana timpânica e o orifício da orelha (ver imagem abaixo).

Cera de ouvido
O ragião mais próxima do exterior do ouvido possui glândulas ceruminosas e glândulas sebáceas, responsáveis pela produção de sebo e gordura. A cera do ouvido é o resultado da mistura deste sebo com sujeiras, pele descamada, bactérias, água e restos de pelos que existem no ouvido. A cera é produzida exclusivamente no terço mais externo do ouvido, podendo ser encontrada mais profundamente, perto do tímpano, somente se tiver sido empurrada por cotonetes, grampos, tampa de caneta ou qualquer outro corpo estranho introduzido no ouvido.

O cerúmen é importante para a saúde do ouvido, pois ele serve de proteção contra traumas, ressecamento e bactérias. A cera possui diversas propriedades protetoras, como impermeabilidade à água, presença de anticorpos e um pH ácido (que combatem germes presentes no ouvido), consistência pegajosa, que ajuda a grudar corpos estranhos minúsculos, além de servir como lubrificante do canal auditivo, o que diminui o risco de ressecamento e lesões.

O ouvido externo é "autolimpante". As suas células vão se renovando sempre de dentro para fora, o que faz com que o cerúmen seja naturalmente e continuamente empurrado para fora do ouvido. As pessoas tendem a achar que a existência de pedacinhos de cera do lado de fora do ouvido seja um sinal de excesso de cerúmen ou de ouvido entupido por cera. Na verdade, isto é apenas o ouvido trabalhando adequadamente para eliminar porções de cera antiga.

Sintomas do ouvido entupido de cera

Como já explicado, a cera não é uma doença ou problema de saúde, por isso, a sua simples existência não causa nenhum sintoma.

O problema da cera do ouvido surge quando a mesma fica impactada e causa obstrução do canal auditivo. Neste caso os seguintes sintomas podem estar presentes:
Por que a cera fica impactada no ouvido?

Uma das causas mais comuns de entupimento do canal auditivo por cera é o uso de cotonetes ou outros objetos com intuito de limpar o ouvido. O cotonete é muito grande e acaba que empurra a cera muito mais do que consegue remover. O seu uso frequente pode criar um grande rolha  no fundo do canal auditivo, fazendo com que o processo de natural de limpeza do ouvido seja incapaz de empurrar todo o cerúmen impactado.

O processo normal de envelhecimento também pode ser um fator de risco. Pessoas mais velhas produzem um cerúmen mais duro e menos lubrificado, que, junto com alterações e agressões à pele que recobre o ouvido, provocam uma redução na capacidade de expulsar a cera.

Pessoas com alterações na anatomia do ouvido, seja de nascença, por infecções frequentes de ouvido ou causada por traumas, podem ter um canal auditivo mais apertado, o que favorece a impactação do cerúmen.

Em alguns casos, porém, não conseguimos encontrar nenhum motivo claro para a ocorrência do entupimento do ouvido por cera. Algumas pessoas simplesmente produzem mais cerúmen do que o ouvido é capaz de eliminar, estando sob risco permanente de criar rolhas de cerúmen.

Como remover cera do ouvido

O cerúmen deve ser removido sempre que o paciente tiver algum dos sintomas descritos anteriormente. Existem basicamente três modos para se remover o excesso de cera dos ouvidos: ceruminolíticos, irrigação ou remoção mecânica pelo otorrinolaringologista.

Os ceruminolíticos são são substâncias que podem ser pingadas nos ouvidos com o objetivo de amolecer o cerúmen, facilitando sua expulsão natural. Um dos ceruminolíticos mais conhecidos é o Cerumin®. Gotas de óleo mineral também podem ser usadas. O uso de ceruminolíticos, apesar de serem simples e vendidos sem necessidade de receita médica nas farmácias, não deve ser feito sem orientação de um otorrinolaringologista. Pessoas com lesões do tímpano, dor ou sinais de infecção do ouvido não devem pingar nada sem orientação médica. Há também o risco dos ceruminolíticos ficarem presos atrás da rolha de cera, provocando irritação da membrana timpânica.

A irrigação é outra opção válida para remoção do cerúmen. O procedimento é geralmente feito com um jato de soro morno no ouvido com uma seringa grande de 200ml. O uso prévio de ceruminolíticos ajuda a amolecer a cera e aumenta a eficácia do procedimento. A irrigação também não deve ser feita em pacientes com dor, perfuração do tímpano ou sinais de infecção do ouvido. Apesar de ser um procedimento simples, o mais seguro é evitar o seu uso em casa, sem assistência de um profissional treinado, pois há riscos de perfuração do tímpano e infecção do ouvido se a irrigação for feita de forma errada.

A remoção mecânica do cerúmen é o método mais rápido e eficaz, mas só pode ser feito por um otorrinolaringologista. O médico, com instrumentos especiais, consegue visualizar diretamente o interior do ouvido, podendo remover facilmente o excesso de cera impactada.


Leia o texto original no site MD.Saúde: CERÚMEN | Cera do ouvido http://www.mdsaude.com/2012/10/cera-ouvido.html#ixzz296oJIxGk

CIENTISTAS BRASILEIROS IDENTIFICAM MECANISMO DA MEMÓRIA QUE PODE AJUDAR NA CURA DO MAL DE ALZHEIMER


Cientistas brasileiros identificam mecanismo da memória que pode ajudar na cura do mal de Alzheimer

11/10/2012 14:23,  Por Redação, com ABr - de Brasília
De acordo com os cientistas, o cérebro utiliza somente um mecanismo para gravar e lembrar memórias
Um grupo de cientistas do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN), em colaboração com cientistas da Universidade de Uppsala, na Suécia, descobriu o funcionamento de mecanismo da memória que pode ajudar na elaboração de medicamentos para a cura do mal de Alzheimer e da esquizofrenia, entre outras doenças.
De acordo com os cientistas, o cérebro utiliza somente um mecanismo para gravar e lembrar memórias, alternando entre uma função e outra em fração de segundo. Nas pesquisas, os cientistas descobriram que as células responsáveis pela memória são sensíveis à nicotina, precisamente o grupo analisado. Outros pesquisadores deverão tentar desenvolver um medicamento semelhante à substância, porém, sem os efeitos nocivos.
O neurocientista e professor da UFRN Richardson Leão, que participou das pesquisas, disse que é necessário ter cautela sobre os medicamentos que serão desenvolvidos. Segundo ele, é preciso ainda realizar mais etapas de pesquisas. “As pesquisas são feitas com animais – neste caso específico, com roedores – que são diferentes dos seres humanos, embora, no caso das células estudadas, existam semelhanças.”
Os pesquisadores descobriram que a ativação de um tipo específico de neurônios, conhecido como  OLM , altera o fluxo de informação do hipocampo – região cerebral que funciona de forma semelhante à memória RAM dos computadores, armazenando temporariamente a informação que depois será salva no córtex. A revelação foi possível devido aos avanços tecnológicos recentes e testes feitos com camundongos transgênicos.
Pesquisas anteriores indicavam que os neurônios do tipo OLM tinham um papel-chave no controle da memória. Mas o camundongo desenvolvido na Suécia permitiu testar a hipótese. O cientista sueco Klas Kullander e o grupo dele geraram um camundongo transgênico cujos  neurônios brilham quando iluminados por luz verde.
Os cientistas brasileiros injetaram um vírus geneticamente modificado no animal, deixando as células OLM sensíveis à luz. Ao utilizarem fibras óticas, os cientistas conseguiram ativar e inativar essas células, lançando mão de uma nova tecnologia, conhecida por optogenética.
No estudo, cientistas brasileiros e suecos mostraram que as células OLM modulam a entrada e a saída de informações nas vias do hipocampo. Quando ativadas, essas células priorizam os sinais provenientes do próprio hipocampo, atraindo as memórias armazenadas ao mesmo tempo em que fecham a entrada de informações sensoriais na região.
A próxima etapa das pesquisas é fazer estudos eletrofisiológicos no Instituto do Cérebro da UFRN, com base em uma investigação da atividade elétrica do cérebro, para entender de que forma as células OLM influenciam as ondas cerebrais no hipocampo, também envolvidas na formação de memórias.
Nas pesquisas, os cientistas conseguiram também demonstrar que o contrário ocorre quando essas células estão inativas. O estudo foi publicado na revista Nature Neuroscience de outubro. A pesquisa foi possível devido a um convênio de cooperação científica financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Os cientistas brasileiros, no entanto, advertem que é necessário vencer algumas limitações existentes no Brasil e que acabam por limitar as pesquisas com animais transgênicos trazidos do exterior. Segundo eles, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) relaciona como biopirataria a importação de animais transgênicos para pesquisas científicas de financiamento público.

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terça-feira, 9 de outubro de 2012

O QUE É TRANSTORNO BIPOLAR / DISTÚRBIO BIPOLAR


O que é Transtorno bipolar / Distúrbio bipolar?
Posted: 09 Oct 2012 06:28 AM PDT
Transtorno BipolarO médico Drauzio Varela entrevista Valentim Gentil Filho, médico e professor de Psiquiatria na Universidade de São Paulo.
CONHECENDO O INIMIGO
No passado, o transtorno bipolar era conhecido pelo nome de psicose maníaco-depressiva, uma doença psiquiátrica caracterizada por alternância de fases de depressão e de hiperexcitabilidade ou mania. Nesta fase, a pessoa apresenta modificações na forma de pensar, agir e sentir e vive num ritmo acelerado, assumindo comportamentos extravagantes como sair comprando compulsivamente tudo o que vê pela frente, ou então investindo em empreendimentos acreditando que renderão lucros vertiginosos de ou envolvendo-se em experiências perigosas sem levar em conta o mal que podem causar.
Sabe-se que os transtornos bipolares estão associados a algumas alterações funcionais do cérebro, que possui áreas fundamentais para o processamento de emoções, motivação e recompensas. É o caso do lobo pré-frontal e da amígdala, uma estrutura central que possibilita o reconhecimento das expressões fisionômicas e das tonalidades da voz. Junto dela, está o hipocampo que é de vital importância para a memória. A proximidade dessas duas áreas explica por que não se perdem as lembranças de grande conteúdo emocional. Por isso, jamais nos esquecemos de acontecimentos que marcaram nossas vidas, como o dia do casamento, do nascimento dos filhos ou do lugar onde estávamos quando o Brasil ganhou o campeonato mundial de futebol.
Outro componente envolvido com os transtornos bipolares é a produção de serotonina no tronco-cerebral (o cérebro arcaico), uma substância imprescindível para o funcionamento harmonioso do cérebro.
DISCUTINDO A NOMENCLATURA
Drauzio – Por que, nos anos 1980, a antiga psicose maníaco-depressiva passou a chamar-se transtorno bipolar?
Valentim Gentil Fº – Analisando separadamente os elementos que compõem esse nome, pode-se dizer que a palavra psicose carrega a conotação de estigma, isto é, de marca infamante, vergonhosa. Maníaco, por sua vez, é um termo técnico derivado do grego e significa loucura. De fato, na fase de hiperexcitabilidade, o indivíduo é o estereótipo do louco, já que suas atitudes destoam, e muito, do padrão normal de seu comportamento. Depressivo era o termo mais brando dos três e que menos impacto causava. Por isso, considerou-se que a expressão psicose maníaco-depressiva era pesada demais para designar uma doença que, de certa forma, não era tão terrível quanto o nome fazia supor. Na verdade, trata-se de um transtorno de humor que oscila entre o polo da euforia, da mania ou da hipomania, do qual faz parte esse comportamento excitado e desorganizado, e o polo da depressão, retomando a pessoa depois o equilíbrio sem grandes prejuízos comportamentais nem na integração das emoções e dos pensamentos.
De qualquer modo, a palavra psicose não era de todo descabida porque, durante a crise, algumas pessoas ficam realmente psicóticas, ou seja, apresentam uma afecção muito grave da psique com alucinações e delírios, o grau extremo desse transtorno de humor. A partir do momento, porém, em que essa afecção grave recebe tratamento eficaz e adequado, o quadro torna-se benigno a tal ponto que é possível conviver com pessoas portadoras de transtorno bipolar de humor sem identificar o problema.
A mudança de nomenclatura ocorreu, então, para diminuir o estigma e para estabelecer distinção entre esse tipo de transtorno e as depressões unipolares que nunca evoluem para a fase de euforia, de mania ou hipomania. Além disso, essa distinção foi importante para verificar se biologicamente as patologias eram diferentes e, portanto, exigiam condutas especiais de tratamento.
EUFORIA PATOLÓGICA
Drauzio – Todos atravessamos na vida fases de grande euforia e de grandes tristezas. Como diferenciar o quadro normal do patológico?
Valentim Gentil Fº – Em psiquiatria, os termos ainda não atingiram a especificidade necessária. Por exemplo, etimologicamente, a palavra euforia quer dizer humor normal, bom humor. Se o indivíduo está eufórico no carnaval, no dia do aniversário ou porque ganhou um prêmio ou um campeonato, isso nada tem de anormal nem de patológico. O que chama a atenção é a desproporção entre as circunstâncias e as reações, ou seja, o comportamento é desproporcional aos fatos ou inadequado ao ambiente. A pessoa está alegre e eufórica, quando nada ao redor justifica tais sentimentos. Como sua autocrítica está comprometida, age como se estivesse (e não está) sob o efeito do álcool ou de drogas. Seu pensamento fica acelerado e desorganiza-se de tal modo que os assuntos surgem em tumulto e é difícil acompanhar sua linha de raciocínio.
Drauzio – Dê um exemplo para ficar mais claro.
Valentim Gentil Fº – Existe um filme em que uma das personagens, Mr. Jones, assume o comportamento típico desses pacientes. Nas crises de euforia, os portadores de transtorno bipolar apresentam menor necessidade de sono. Mr. Jones levantava-se às 4h da manhã e, sem se incomodar com o descanso alheio, ligava o rádio bem alto como se as atividades por ele programadas para aquele dia interessassem a todos. Noutros momentos, julgando-se dono de um poder extraordinário, subia no telhado certo de que poderia alçar voo. Nessas crises de agitação, mexia com as pessoas e falava tão depressa que ninguém conseguia acompanhar seu pensamento. Às vezes, apesar da genialidade aparente, expunha-se a riscos desnecessários e descabidos.
Em geral, as famílias logo percebem que alguma coisa mudou e a pessoa também pode notar a diferença. Isso é de extrema importância como sinal de alerta. Na medida em que o próprio indivíduo e os familiares se dão conta dessa liberação exagerada de energia e humor, algumas providências podem ser tomadas para reverter o quadro. Se, porém, o problema passa despercebido ou é negado, as consequências podem ser desastrosas. O frenesi e desorganização mental, depois de algumas semanas, podem provocar um estado de exaustão perigoso e as pessoas mais idosas correm o risco de descompensação metabólica ou de crises de hipertensão.
É importante repetir que, apesar de bem no início a sensação de euforia, de prazer, de energia, de percepção aguçada, inteligência viva e criatividade ser muito agradável, ela pode representar perigo, chegando a constituir, no passado, uma das causas importantes de mortalidade.
FATORES GENÉTICOS E AMBIENTAIS
Drauzio – Filhos de pessoas com transtorno bipolar apresentam possibilidade maior de desenvolver essa patologia?
Valentim Gentil Fº – Sabe-se, desde a Antiguidade, que a existência de um caso de transtorno bipolar numa família aumenta a possibilidade de que a enfermidade se manifeste em outros membros da mesma família. O desenvolvimento da genética permitiu analisar grande número de gêmeos nos quais a patologia torna-se mais evidente. Gêmeos idênticos, ou monozigóticos, possuem genoma absolutamente igual, mas apenas em 80% dos casos os dois irmãos apresentam quadros de euforia e depressão. Embora a porcentagem seja elevada, 20% não manifestam o problema. Cabe perguntar, então, se fatores extragenéticos interferem nesse resultado. Sim e não. Uma vez que ninguém expressa seu genoma completamente, pode-se deduzir que, apesar da carga genética idêntica, só num dos gêmeos ela encontrou as condições necessárias para o desenvolvimento da patologia que certamente depende da interação de tais fatores com o ambiente. Não se pode deixar de considerar também que, além da predisposição e vulnerabilidade geneticamente determinadas, certas situações contribuem para a eclosão ou precipitação do problema.
Drauzio - Quais os fatores ambientais mais importantes?
Valentim Gentil Fº – As evidências indicam que, nos últimos anos, cresceu a incidência desses quadros. Será que aprendemos a diagnosticá-los melhor? Pouco provável, pois algumas descrições do transtorno bipolar datam de 2.500 anos atrás, época em que os termos mania e melancolia já eram empregados. Por outro lado, descrições de médicos, no início da era cristã, são idênticas às que encontramos hoje nos melhores livros de psiquiatria.
Por que, então, a prevalência de uma doença tão robusta e evidente, tão antiga e bem descrita, está aumentando? Uma das possibilidades é que alguns acontecimentos e atitudes podem precipitar a ocorrência de distúrbios do humor. Hoje, estamos submetidos a uma carga maior de estresse, dormimos menos e consumimos mais substâncias lícitas e ilícitas que interferem no humor. Quer um exemplo? O uso de remédios para emagrecer ou de cafeína é mais frequente e maior agora do que era no passado.
Outro exemplo? O puerpério é uma fase em que é maior o risco de surgirem quadros de depressão e euforia. Para as mulheres, as explicações são muitas: oscilação dos hormônios, parto, nascimento do bebê. Como explicar, porém, a manifestação da doença nos maridos? Certamente, a emoção, a privação do sono, a expectativa, a atmosfera festiva do nascimento desencadeiam a crise, confirmando que a interação de fatores ambientais, constitucionais e genéticos é de extrema importância.
Ninguém deve viver numa redoma, mas, se as pessoas levassem em conta que o sistema nervoso é bastante delicado e precisa ser tratado com respeito, talvez a incidência de casos de transtorno afetivo fosse menor do que é atualmente.
Drauzio – Existe relação clara entre o uso de cafeína e o transtorno bipolar?
Valentim Gentil Fº – O uso excessivo de cafeína pode produzir convulsão e algumas pessoas ingerem, todos os dias, quantidades absurdas dessa substância. Cheguei a conhecer uma que tomava 14 litros de coca-cola num único dia e era difícil distinguir seu comportamento do de um indivíduo com transtorno bipolar.
E para que as pessoas usam cafeína? Para ficarem acordadas, com mais energia e ânimo, mais alerta. Trata-se, então, de um agente externo, consumido como se fosse alimento, que estimula o humor. No que se refere às drogas ilícitas (cocaína, crack, anfetaminas), seu uso aumenta o risco de desenvolver a primeira crise, assim como aumenta a frequência das recorrências, que tendem a tornar-se autônomas, fenômeno já apontado na Antiguidade.
IMPORTÂNCIA DP DIAGNÓSTICO PRECOCE
Drauzio – O diagnóstico de transtorno bipolar em crianças e adolescentes, pouco frequente no passado, cresceu bastante nos últimos tempos. O que justifica essa mudança?
Valentim Gentil Fº – Trabalho com transtorno do humor desde que me formei, há 32 anos, e só me dei conta de que ele pode manifestar-se na infância há cerca de 10 anos. Por circunstâncias diversas, os psiquiatras de adultos receberam menor
treinamento em psiquiatria infantil, uma área na qual ainda predominam conceitos talvez já superados. Por isso, os casos de transtorno bipolar ficavam mais evidentes na adolescência quando, em geral, era feito o diagnóstico. No entanto, se enfocarmos a história desses adolescentes e ouvirmos seus pais, encontraremos evidências muito precoces de alteração de humor, irritabilidade, distúrbio do sono e hiperatividade. Hoje, está em voga atribuir tais sintomas apenas aos distúrbios de atenção e à hiperatividade (TDAH) e existem programas inteiros dedicados ao reconhecimento e tratamento dessas manifestações. Em muitas crianças, porém, eles podem estar relacionados com o transtorno bipolar, particularmente se a frequência dessa patologia é alta na família.
Essa visão tornou-se tão importante que existe um site [www.bpkids.org] por meio do qual os parentes chamam a atenção de médicos, psicólogos e professores para o comportamento conturbado dessas crianças que mudam de humor várias vezes num mesmo dia.
Drauzio – Nesse ponto, elas são diferentes dos adultos que apresentam ciclos de depressão e hiperatividade mais longos.
Valentim Gentil Fº – É verdade, nos adultos os ciclos são mais longos e chama-se ciclagem rápida quando se repetem quatro vezes num ano, sinal de maior gravidade e complexidade do quadro. Imagine, agora, uma criança que apresente 1500 ciclos por ano, porque mais de quatro ela pode ter facilmente num dia. Essa criança de comportamento imprevisível, inquieta física e mentalmente, não tem distúrbio de atenção, tem transtorno bipolar. Por isso, se não distinguirmos a criança apenas rebelde e desafiadora da que tem um temperamento desfavorável, hostil e irritado, porque é portadora de transtorno de humor bipolar, e quisermos educá-la com severidade exagerada, ela reagirá negativamente. Esse transtorno requer tratamento adequado. Provavelmente, na história da humanidade, muita gente com predisposição para a doença e que manifestou um distúrbio de personalidade muito grave, se tivesse sido atendida de modo conveniente, teria desenvolvido uma forma mais branda da enfermidade.
O assunto é tão importante que a revista Time destacou o transtorno bipolar na infância como matéria de capa na edição do dia 19 de setembro de 2002.
TRANSTORNO BIPOLAR E CRIATIVIDADE
Drauzio – Edgar Allan Poe, Van Gogh, Schuman, Churchill, grandes homens da história e das artes, tinham transtorno bipolar. Qual a relação entre a criatividade e essa doença?
Valentim Gentil Fº – Interessante que essa relação entre transtorno bipolar de humor –euforia e melancolia – e criatividade já era abordada por Aristóteles que indagava (pelo menos, a pergunta é atribuída a ele) por que tantos homens ilustres da filosofia, da matemática e das artes apresentavam essa característica. De acordo com alguns depoimentos, estados depressivos favorecem a percepção de um universo que em estado normal seria impossível apreender e a euforia estimula a criatividade. No entanto, pesquisas realizadas nos últimos 20 anos, sugerem que essa hipótese não é verdadeira. Elas apontam que, na maioria dos casos, a criatividade é uma característica genética encontrada também nos parentes próximos que não são doentes .
Quem estudou esse tema de forma bastante original foi Kay Jamison, uma psicóloga portadora de transtorno bipolar e uma das personalidades mais conhecidas na área. Em seu livro autobiográfico “Uma mente inquieta”, publicado há alguns anos e traduzido para o português, a autora relata que só se acertou na vida quando se deu conta do que tinha e pôde tomar medidas preventivas e de precaução, como tomar lítio, que evitassem as crises.
Em outro livro, “Touched with Fire”, ainda não traduzido para o português, ela analisa a biografia de grandes líderes políticos, religiosos, militares, intelectuais e artistas e registra o que falavam e sentiam nos momentos de depressão e de euforia. Um escritor inglês, por exemplo, julgava a depressão não uma inspiração dos deuses, mas uma poeira que recobria o cérebro. Van Gogh, que se matou aos 37 anos com um tiro no peito, atravessava um período de extrema melancolia quando pintou seu último quadro – corvos num campo de trigo. No verão daquele mesmo ano, atravessando uma fase de grande euforia, o tema de um quadro psicodélico é uma fantástica noite estrelada.
Diante das possibilidades de tratamento que existem hoje, teria sido oferecido a Van Gogh, no mínimo, o direito de optar se desejava continuar pintando obras-primas nos estados de euforia e depressão ou se preferia tomar lítio, acalmar as crises e não correr o risco de morrer precocemente.
Drauzio – Que opções você me ofereceria se, na situação de Van Gogh, eu preferisse continuar pintando quadros magníficos, apesar dos inconvenientes das crises, a ser tratado e perder a inspiração?
Valentim Gentil Fº – Eu lhe ofereceria minha amizade e compaixão. Foi o que fez o dr. Gachet, grande pintor e médico de Van Gogh, que só contava com o Digitallis para cuidar do amigo. Dizem até que Van Gogh usou tanto o amarelo em suas obras, porque tomou esse remédio em demasia.
Vale considerar que o dr. Gachet não tinha outra opção de tratamento naquela época e o resultado foi a perda de um grande gênio. Hoje, no entanto, ele poderia propor várias alternativas de tratamento. Será que Van Gogh escolheria continuar pintando no estado psicótico que o levou a cortar uma orelha e a dar um tiro no peito, ou preferiria pintar em estado normal, controlando formas e pincel do jeito maravilhoso que sabia fazer? Para tanto, bastava que concordasse em tomar lítio. Talvez nas primeiras semanas, até acertar a dosagem adequada para seu organismo, seu desempenho em alguma área caísse um pouco, mas o risco de suicídio ficaria sete vezes menor com o tratamento.
Transtorno Bipolar
POSSIBILIDADES DE TRATAMENTO
Drauzio – Há tratamentos eficazes para o transtorno bipolar atualmente?
Valentim Gentil Fº – Há tratamentos tão eficazes quanto os existentes em qualquer outra área da medicina. Sua aplicação possibilita, em poucas semanas, reverter um quadro grave de euforia. A doença não tem cura, mas as pessoas melhoram, recebem alta e reassumem suas atividades. Se não se expuseram demais e não ficaram estigmatizadas pelo comportamento aberrante, serão acolhidas como alguém que teve um desequilíbrio metabólico qualquer ou uma ausência provocada pela ingestão de drogas. Isso se consegue com medicamentos (neurolépticos, antipsicóticos, estabilizadores do humor) e a retirada de certas substâncias (cafeína, cocaína, anfetaminas) que agravam o quadro. O risco de recaída ou de evoluir para depressão existe e é preciso estar atento ao uso de medicamentos antidepressivos que, embora eficazes, podem precipitar uma virada indesejável para a euforia ou acelerar a frequência das crises.
Em se tratando do lítio, o incrível é que os médicos do Império Romano encaminhavam seus pacientes com mania e melancolia para uma estação de águas ricas em lítio. Mesmo desconhecendo a existência dessa substância, haviam percebido que ali eles reagiam melhor do que noutras termas. Outro ponto importante é que o lítio é uma substância tóxica presente em doses bem baixas no organismo. Usado em doses adequadas, porém, é capaz de reverter os quadros de euforia e evitar as recorrências. Tomando lítio, os pacientes podem levar vida normal e dar asas à criatividade.
Drauzio – A pessoa precisa sempre estar medicada para levar vida normal?
Valentim Gentil Fº – Por quanto tempo a pessoa deve tomar lítio para levar vida normal é discussão constante na literatura. Nos EUA, existe um centro de informações do qual constam 35.000 artigos que tratam da utilização do lítio nos mais diferentes campos, entre eles, a prevenção da recorrência dos transtornos bipolares. Além disso, está provado que a associação do lítio com anticonvulsivantes e antidepressivos previne recaídas. O lastimável, porém, é que apenas uma parcela pequena da população tenha acesso a esse tratamento.
Drauzio – O problema talvez não seja apenas dificuldade de acesso, mas o número insuficiente de profissionais com conhecimento e habilidade para lidar com essas drogas e atender tantos pacientes, não é?
Valentim Gentil Fº – Esse é um problema mundial. Mesmo nos EUA, onde existem mais recursos, os residentes de psiquiatria não aprendem a usar lítio adequadamente. Segundo seus professores americanos, seria necessário que acompanhassem a evolução dos pacientes durante seis meses ou um ano, para inteirar-se das nuances do tratamento porque o lítio é tóxico e, se não for usado direito, não funciona. Como isso não é possível, eles preferem treinar os residentes para usar anticonvulsivantes que, na maioria dos casos, são desnecessários, causam efeitos colaterais e, a longo prazo, não apresentam os bons resultados do lítio. Por paradoxal que pareça, nem mesmo tendo representado uma economia de 150 bilhões de dólares, porque a indicação do lítio no tratamento dos transtornos afetivos evitou internações, violência, suicídios, ele ainda não é usado adequada e regularmente nos EUA.
No Brasil, infelizmente, não existem programas de prevenção com o uso de lítio nem treinamento de residentes a não ser em alguns centros universitários que possuem clínicas especializadas em transtorno bipolar, como o Hospital das Clínicas, a Escola Paulista de Medicina e algumas outras universidades paulistas e brasileiras. Diante da dimensão do problema, existir um programa de prevenção deveria estar a cargo da Saúde Pública.
TRANSTORNO BIPOLAR NA INFÂNCIA
Drauzio – Observando o comportamento dos filhos, como os pais podem identificar sinais de transtorno bipolar?
Valentim Gentil Fº – Se, desde que nasceu, a criança apresenta um temperamento mais eufórico, é cheia de energia e criatividade, mas não perturba ninguém nem a si mesma, isso faz parte de sua personalidade, é normal e não deve ser coibido.
Agora, se ela é instável demais e repentinamente oscila entre a euforia e a depressão, a apatia e a hiperatividade, se nada justifica seu estado de excitação e euforia, a falta de sono, a empolgação e há casos de transtorno bipolar ou mesmo de depressões decorrentes na família, os pais devem procurar ajuda. O problema, porém, é o risco de encontrar apenas quem dê explicações lógicas para o comportamento da criança. A lógica pode explicar muita coisa, mas nem tudo o que é lógico é normal. As professoras e orientadoras explicam o que acontece na escola e a própria dinâmica familiar serve de explicação para o comportamento infantil. Por isso, é sempre recomendado consultar um pediatra, embora infelizmente muitos ainda não estejam preparados para reconhecer os sintomas do transtorno. Na verdade, entre a manifestação dos primeiros sinais e o diagnóstico, às vezes, transcorrem mais de dez anos.
TRANSTORNO BIPOLAR NA ADOLESCÊNCIA
Drauzio – Você disse que as crianças têm múltiplos episódios de depressão e excitação num único dia e que, nos adultos, a doença manifesta-se em ciclos bem mais longos. E na adolescência, o que acontece?
Valentim Gentil Fº – Na adolescência, o quadro clínico costuma surgir a partir dos 15 anos e tem características muito diferentes das que se observam na infância. O pico de incidência, porém, ocorre entre 18 e 25 anos.
É nesse período que, em geral, os jovens estão sob maior estresse, mais inseguros e indefinidos, violentamente bombardeados pelos hormônios. É também nesse período da vida que se expõem mais a comportamentos de risco, a sexualidade explode e as drogas o seduzem. É nesse período, portanto, que fatores ambientais, constitucionais e genéticos interagem favorecendo a eclosão do transtorno bipolar.
Nessa fase, o diagnóstico é mais fácil, porque se trata de um quadro descrito há 2.500 anos. É na infância que a dificuldade se acentua. A tendência é reprimir a criança, tentar educá-la à força ou atribuir a responsabilidade por seu comportamento inadequado aos pais, aos irmãos, à escola ou aos amigos. O caso se complica ainda mais porque não se tem certeza de que tais quadros de transtorno sejam biologicamente equivalentes, isto é, se o aparecimento na infância é simplesmente a manifestação precoce de uma patologia que iria acontecer mais tarde no adolescente ou no adulto, ou se é algo mais intrincado do ponto de vista neurofisiológico.
É importante observar que o transtorno de humor bipolar pode aparecer pela primeira vez em qualquer idade: na criança, no adolescente, no adulto ou no idoso. Nada impede que um indivíduo de 60 anos, muito criativo, energético, envolvido em grandes projetos e intensa atividade, de repente desencadeie o processo por um motivo qualquer. Isso aconteceu com personalidades famosas de nossa história que tiveram o quadro deflagrado, quando eram mais velhas, e só então descobriram que sua energia e dinamismo tinham pontos em comum com a predisposição para a doença. Em vista disso, independentemente da idade, quanto mais rápido ela for diagnosticada, menos irá interferir na estruturação da personalidade das crianças, no caráter do adolescente, nas relações profissionais e familiares do adulto e na imagem do indivíduo com mais idade.
COMPORTAMENTO FAMILIAR
Drauzio – O que deve fazer a família diante de um caso como esses?
Valentim Gentil Fº – Antes de tudo é preciso combater o medo, porque é ele que aparece primeiro. Depois, é tentar não agir agressivamente contra a pessoa na fase de euforia. No começo, ela é até engraçada, de pensamento ágil, criativa. Se os familiares não estiverem inseguros e temerosos, poderão convencê-la a procurar atendimento para um diagnóstico diferencial, a fim de eliminar possíveis causas imediatas da doença. Se a intervenção ocorrer em 48 ou 72 horas, praticamente não haverá prejuízo. O primeiro remédio que se receita hoje é uma visita a sites da internet especializados em informar as pessoas sobre a regulação do humor, porque isso é fundamental na manutenção do tratamento.
Drauzio – Existe, no Brasil, alguma associação de apoio a esses pacientes?
Valentim Gentil Fº – Existe a ABRATA, Associação Brasileira de Transtornos Afetivos, que tem site na internet <ww.abrata.com.br>. Essa associação congrega familiares, amigos e portadores de transtorno do humor, tanto o da depressão quanto o bipolar, e é importante na medida em que procura trocar informações e fornecer elementos inclusive para os profissionais de saúde mental sobre a natureza e tratamento adequado da doença.
Nos Estados Unidos, o órgão equivalente à ABRATA conta com 500 sedes espalhadas pelo país e que prestam serviço semelhante ao da associação brasileira.
SEU FILHO É BIPOLAR?
Não existem testes padronizados para transtorno bipolar, mas esta lista, adaptada do livro “The Bipolar Child”, pode ajudá-lo a reconhecer alguns sinais de alerta. Assinale os comportamentos que seu filho atualmente apresenta ou apresentou no passado. Se você assinalar mais de 20 itens, ele deveria ser examinado por um profissional da área.
Seu filho:
1- Fica aflito demais quando separado da família;
2- Demonstra ansiedade ou preocupação excessiva;
3- Tem dificuldade para levantar-se pela manhã;
4- Fica hiperativo e excitável à tarde;
5- Tem sono agitado ou dificuldade para conciliar o sono;
6- Tem terror noturno ou acorda muitas vezes no meio da noite;
7- Não consegue concentrar-se na escola;
8- Tem caligrafia pobre;
9- Tem dificuldade em organizar tarefas;
10- Tem dificuldade em fazer transições;
11- Reclama de sentir-se aborrecido;
12- Tem muitas ideias ao mesmo tempo;
13- É muito intuitivo ou muito criativo;
14- Distrai-se facilmente com estímulos externos;
15- Tem períodos em que fala excessiva e muito rapidamente;
16- É voluntarioso e recusa-se a ser subordinado;
17- Manifesta períodos de extrema hiperatividade;
18- Tem mudanças de humor bruscas e rápidas;
19- Tem estados de humor irritável;
20- Tem estados de humor vertiginosamente alegres ou tolos;
21- Tem ideias exageradas sobre si mesmo ou suas habilidades;
22- Exibe um comportamento sexual inapropriado;
23- Sente-se facilmente criticado ou rejeitado;
24- Tem pouca iniciativa;
25- Tem períodos de pouca energia, ou alheamento, ou se isola;
26- Tem períodos de dúvida sobre si mesmo ou de baixa estima;
27- Não tolera demoras ou atrasos;
28- Persegue obstinadamente suas próprias necessidades;
29- Discute com adultos ou é mandão;
30- Desafia ou se recusa a cumprir regras;
31- Culpa os outros por seus erros;
32- Enerva-se facilmente quando as pessoas impõem limites;
33- Mente para evitar as consequências de seus atos;
34- Tem acessos de raiva ou fúria explosivos e prolongados;
35- Tem destruído bens intencionalmente;
36- Insulta cruelmente com raiva;
37- Calmamente faz ameaças contra outros ou contra si mesmo;
38- Já fez claras ameaças de suicídio;
39- É fascinado por sangue ou coágulos;
40- Já viu ou ouviu alucinações.
POSSIBILIDADES DE TRATAMENTO NA INFÂNCIA
Tratar crianças com transtorno bipolar não é fácil, mas, atualmente, pelo menos é possível. O primeiro passo, em geral, é prescrever medicamentos. Depois vem a psicoterapia individual, a terapia familiar e as mudanças no estilo de vida.
RECURSOS TERAPÊUTICOS
Lítio – O tradicional esteio, atenua os sintomas através da regulação dos neurotransmissores, mas não funciona para todas as pessoas.
Medicamentos anticonvulsivantes – Inicialmente usados no tratamento da epilepsia, esses medicamentos ajudam a controlar as crises de mania.
Antipsicóticos atípicos – Medicamentos utilizados para ajudar os esquizofrênicos a vencerem os delírios podem fazer o mesmo pelos bipolares.
Antidepressivos – Apresentam o risco de aumentar os ciclos do transtorno bipolar, mas seu uso pode ser necessário como parte da associação de medicamentos.
Estilo de vida – Rotinas como, por exemplo, a fixação dos horários de dormir e acordar, são fundamentais; o uso de cafeína deve ser restringido e os adolescentes devem evitar o uso de drogas e álcool.
Psicoterapia individual – Crianças precisam de aconselhamento para ajudá-las a equilibrar o sono, a alimentação, o trabalho e a diversão; precisam também falar sobre problemas em casa e resolver conflitos que possam desencadear as crises.
Terapia familiar – Os pais devem aprender quando ceder – isto é crucial no início do tratamento – e quando devem ser firmes. Contendas ou disputas familiares devem ser reduzidas ao mínimo. Os irmãos podem servir como olhos e ouvidos confiáveis para uma criança cujas percepções estão confusas.
Fonte: Drauzio Varella